PLAGa 

Texto da Curadora Marina Ramos sobre sobre a exposição PLAGa, individual de Antonio Wolff:

Em séculos passados, teóricos¹ já elaboravam projeções sobre o impacto e velocidade com que a combinação de imagens e tecnologias atravessariam o modo como lemos o mundo. Não há dúvida que o ato de olhar nos dias de hoje, pelo menos para a maioria da população, é demasiado significativo para interpretar e processar informações que chegam a todo momento. O fluxo e a força das imagens as tornam espécies de “armas culturais”², capazes de seduzir, gerar ódio e fanatismo, entre inúmeras outras reações.

A trajetória de Antonio Wolff como produtor de imagens é extensa. Entretanto, nesta série de trabalhos pensados para o Centro de Arte Digital do MuMA, o artista privilegiou a exibição de sua poética que se manifesta na linguagem do áudio - uma faceta de sua produção de aspecto mais experimental, mas nem por isso nova para Antonio.

Nas paisagens sonoras criadas pelo artista se faz evidente o modo como estas captam e reproduzem o que os brasileiros tem absorvido do cenário político e social atual. Por meio das colagens que incluem samples, filtros de áudio e trechos de discursos de figuras públicas e da cultura de massa, Antonio reverbera uma perspectiva de um estado grave e urgente que ressoa pelo país. As variações de intensidade, timbre e altura instigam esquemas de estímulo e resposta a quem se sujeita a imergir no som - uma provocação que certamente não está perto da sensação de bem-estar. Os corpos que vivem no Brasil (ou a grande maioria deles) são como descreve David Lapoujade em O corpo que não aguenta mais (2002): são hiperventilados, cuja potência ou aquilo que eles podem “se mede pela sua exposição aos sofrimentos ou às feridas”.

Plaga - substantivo feminino que remete à “extensão de terra, território, país, região, espaço”, ao mesmo tempo à “designação de um tom musical” e também como algo “que não está em linha reta” - nomeia esta exposição justamente por abrigar áudios que ecoam perspectivas de espaço e tempo específicos. O constante desconforto que eles causam põe quem ouve à prova - até quando podem aguentar? Novamente esta condição diz sobre as reflexões de Lapoujade: “Diremo-nos, talvez, que não aguentar mais é o signo de que não resistiremos por muito mais tempo. Ao contrário, se como dissemos, é desde sempre e para sempre que não aguentamos mais, se é desde sempre e para sempre que resistimos”.

Marina Ramos

Maio de 2019

¹

Ítalo Calvino. Seis propostas para o próximo milênio, 1990.

Paul Virilio. A máquina de visão, 1994.

Walter Benjamin. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, 1955.

²

Bruno Latour. O que é iconoclash? Ou, há um mundo além das guerras de imagem?, 2008.